sábado, 24 de dezembro de 2011

“A cultura dos devotos 7”

“Na Europa luterana, ainda havia espaço para a imagem devota: pinturas de Lutero, ilustrações de episódios da Bíblia (em particular do Novo Testamento) ou emblemas, como as ilustrações em A verdadeira Cristandade e Jardim do Paraíso, de Arndt, que inspiraram muitos murais em igrejas alemãs ou suecas, ou mesmo quadros do Juízo Final ou dos tormentos do Inferno. Na Europa calvinista, porém, as paredes das igrejas eram brancas e nuas. O teto, o púlpito ou os monumentos fúnebres podiam ser decorados, mas o vocabulário ornamental se reduzia a poucos termos simples: flores, querubins, lembretes da mortalidade, como ampuletas e caveiras, ou emblemas, como o grou com uma pedra no pé, simbolizando a vigilância. Mesmo na área luterana como na calvinista, muitas vezes vê-se que a igreja ou templo é decorado com textos. Lutero recomendava que os muros dos cemitérios fossem pintados não com imagens, mas com textos, como “Sei que meu Redentor vive”/ Podemos encontrar os Dez Mandamentos expostos em dois quadros, um em cada lado da abóbada do coro, ou um “retábulo de catecismo” inscrito com mandamentos, o pai-nosso e o credo, ou textos da Bíblia pintados no púlpito, ou nas traves do forro da igreja; pois “o Céu e a Terra passarão: mas minhas palavras não passarão” (Lucas 21). Num grau muito maior do que os católicos, a cultura protestante era uma cultura da Palavra”.
(Cultura Popular na Idade Moderna”, Peter Burke, Companhia das Letras, pg. 306)

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